domingo, 19 de setembro de 2021

Escombros

Objetos soltos em  escombros vão sendo resgatados e a partir deles passa a existir uma cena. Em meio à  devastação daquele universo e de relações deterioradas, todos os personagens  enlameados chafurdam no caos.

O espetáculo do Grupo Sobrevento, que está comemorando 30 anos de existência,  não poderia ser mais contundente, principalmente porque identificamos naquelas ruínas, naqueles cacos, naquela desordem e na firmeza dos personagens em se manterem  em pé uma identificação imediata. O Sobrevento nos espelha, pois se fôssemos traduzir em imagens o mundo em que vivemos,  encontraríamos nossos fragmentos no espetáculo.

 A dramaturgia é de autoria de Sandra Vargas. O espetáculo criado a partir do Teatro de objetos, linguagem que o grupo pesquisa há mais de uma década e com a colaboração das companhias francesas Théatrê de Cuisine e Théatrenciel, parte de uma ideia simbólica, mas perfeitamente demostrada, seja através de um casal que precisa de ar para continuar sua falida rotina, seja através de outro onde não cabe nem mais um diálogo tête-à-tetê,  ou ainda daquele que carrega suas dores retratadas em pedras. Enfim, os diálogos são diretos e não deixam dúvidas. As ruínas estão por toda parte , bem como em cada um dos personagens. A dramaturgia é sólida e criativa. Responsável direta por nos deixar boquiabertos. " A destruição do nosso entorno, a ruína de nossas construções, de nossa casa, de nossos sonhos termina por contaminar as nossas relações com os outros e, por fim, entranha-se em cada um de nós,  penetrando-nos os ossos e a alma", diz Sandra Vargas.

A direção também de Sandra Vargas e de Luiz André Cherubini é visualmente muito bonita! Apesar da destruição, a escolha pela lama no cenário e nos próprios personagens tem o condão de fazer com que imediatamente o espectador faça a leitura correta do que vê e do que está por vir. O espaço é muito bem aproveitado e os objetos, claro, são personagens à parte, eles são o fio condutor das cenas. Tais como as cadeiras, exploradas de todas as formas e possibilidades, as xícaras presentes em vários momentos, fragmentos que representam uma casa, tudo na mais completa harmonia cênica. Todas as intenções são perceptíveis. A direção dita o ritmo correto até chegar ao ápice.

Os atores estão perfeitos, no tom que a encenação exige, todos têm o momento apropriado para se destacarem. O elenco é composto por Sandra Vargas, Luiz André Cherubini , Maurício Santana, Sueli Andrade, Liana Yuri e Daniel Viana.

Os figurinos de João Pimenta são adequadamente brancos. Falam por si, pois têm uma representação muito importante naquele contexto de desolação.

A iluminação de Renato Machado é forte, marcante e precisa.

A música de Arrigo Barnabé e a canção de Geraldo Roca cantada por Márcio de Camillo tocam profundamente a alma do espectador, além do tom crítico muito necessário neste momento.

Nem sempre gostamos da nossa imagem vista no espelho, mas o que se vê em Escombros é de lavar a alma. Que belo retrato do mundo atual!

 

Escombros

Até 03 de outubro de 2021 (sextas-feiras, sábados e domingos).

Horário: 20h

On-line

Espaço Sobrevento: Rua Coronel Albino Bairão, 42 – Belenzinho (a duas quadras do Metrô Bresser – Moóca) – São Paulo

Para reservar seu ingresso virtual , envie um e-mail para info@sobrevento.com.br. É gratuito.

 

 

 

 

 

 

 

           

 

 

sábado, 11 de setembro de 2021

Sonhos De Uma Noite Com O Galpão

 

O Galpão, que teve sua origem no Teatro de rua , sempre se renovando ao longo de quarenta anos de existência, forte e exuberante, se faz presente nestes tempos de pandemia, da linguagem à distância.

Quem esteve e está em distanciamento sonha. Todos sonhamos.  O sonho é  a manifestação do inconsciente,  dos entraves do dia-a-dia, dos desejos, das expectativas e também premonitórios porque somos todos radares.


O que fez Pedro Brício com tudo isto? Alquimia de sabores. Pedro Brício é um dramaturgo potente. Fica muito clara a sua densidade e mergulho na pesquisa, além da facilidade que possui em expressá-la. Há no seu olhar muita sensibilidade. 


A direção, neste momento, é algo como uma reinvenção. Sem contato, através de lives, surgiu um jeito de adaptar a realidade consciente à arte. A arte sempre é consciente.  Sabe o que fazer, como fazer, porque fazer.  Sua dramaturgia se traduz na frase: " nós,  agora, somos todas essas pessoas". Sonhamos a vida inteira. De olhos abertos quando é fantasia e neste momento, de olhos fechados quando o sonho é pesadelo. No sonho há um desejo ou uma aversão.  A dramaturgia de Pedro Brício traz as possibilidades, imensas, enormes, do sonho nesta pandemia. Há crítica, afinal, ¨que época é essa em que os idiotas conduzem os cegos?¨ Louvável neste momento.


Sua direção teatro metragem é dinâmica. Conduz a  atmosferas de sonhos, sejam os mais díspares numa unicidade pertinente causando interesse a todo instante. Estes sonhos são  traduzidos em imagens absolutamente palpáveis.


O Grupo Galpão é indiscutível. Cada qual com seu papel em atuações sem peso, com proposital naturalidade, porém, magistrais. Mostrando a trajetória ímpar de um país do medo, do desassossego,  do que não dorme horas a fio. Imensas pausas para esse trabalho tão potente e marcante. Ficará nos idos da história teatral como uma visão correta de como o brasileiro, quiçá  o mundo, sonhou nestes tempos. Um registro  importante das nossas angústias  e em suas origens, voltando às ruas para saber, pesquisar e fazer acontecer o que cada qual sonhou.


Um belíssimo trabalho! Pena não listar cada nome envolvido.
Você tem a chance de vê-los até 12 de setembro.

sábado, 28 de agosto de 2021

Em Nome Da Mãe

 


Humanizar Maria, mãe de Jesus, faz pensar no poder desta, antes de tudo, mulher.  Este é o percurso que o espetáculo "Em Nome Da Mãe" traça para o espectador. Tarefa árdua de retirar o manto sagrado e de acentuar a difícil caminhada de uma mulher que, escolhida e abençoada, defendeu perante as leis dos homens sua gravidez do filho de Deus.

O espetáculo  foi concebido a partir do texto de Erri de Luca e faz paralelos com o universo da condição feminina no Brasil, em que apenas recentemente deixou de ser aceita em nossos Tribunais a absurda alegação de legítima defesa da honra, muito usada no Brasil para legitimar assassinatos de mulheres e que tais. Sempre é custoso pensar que, inclusive, o adultério foi deixado de ser tratado como crime somente em 2005, mas no Brasil colonial era penalizado com a pena capital para a adúltera e o amante.

Trata-se de um espetáculo que faz pensar sobre o momento em que o patriarcado se fez superior ao feminino justamente pela inveja de caber à mulher gerar. A vida, ainda que composta pela presença do homem, se dá através da gestação. É um poder que foi, desde os gregos, atribuído a Gaia.

O texto é riquíssimo. Lakshmi, Oxum, Kali, Iemanjá, Perséfone, estão representadas e invocadas, dentre outras. Trazer Maria em sua maternidade virgem,  naqueles tempos, em contraponto com as lutas do feminino hoje é trazer a mãe maior ensinando cada mulher a lutar.

O espetáculo foi encenado no Teatro Ipanema e é muito auspicioso visualizar o palco, ainda que a linguagem seja mais audiovisual do que teatral.

A atriz Suzana Nascimento, em sua solidão, traz a solidez da verdade em cada gesto, em cada olhar. Interpreta Maria e tantos outros personagens, em mudanças no tom de voz e atitudes e faz visualizar a figura amorosa de José, mesmo não presente. É uma atriz que vai ao longo do espetáculo ao encontro da imensidão do desfecho, dar à luz. Aliás, lindíssimo momento, de muita emoção, quando a mãe sabedora do destino do filho implora por ele. A concepção, dramaturgia e encenação é dela, senhora de tudo o que faz, preenche a cena com absoluta exuberância.

A direção de Miwa Yanagisawa, cada vez mais surpreendente, é de uma sensibilidade ímpar. Trabalha com elementos cênicos preenchendo o palco com a exatidão de quem tem uma intenção reveladora. Dança, torna assustador, torna mágico, brinca e balança com a atriz, mexe e remexe conosco. É uma direção lapidada cujo brilho reflete a todo momento.

A iluminação é um elemento importantíssimo nessa trajetória. A direção de arte, figurino e cenografia de Desirée Bastos faz toda a diferença. É preciosa!

Lindíssima a direção musical e a execução do celo de Federico Puppi.

Corram para assistir a este maravilhoso espetáculo que é on-line e gratuito, na plataforma do Sesc Rio, até 29 de agosto, às 19h.




















sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O Cego e O Louco


Recortes da relação de dominação, perversa por vezes e consequentemente submissa, por outro lado, entre dois irmãos que moram juntos, lembranças, ironias, sarcasmo e inseguranças constroem o mosaico que se monta caco por caco para, ao final, chegar a um resultado inimaginável. " O Cego e O Louco" se passa na noite em que os irmãos Nestor e Lázaro convidam a vizinha Lúcia para um chá e na espera por sua chegada se revela a loucura da relação entre os protagonistas, provoca risos e espanto nesta comédia dramática admirável em todos os detalhes.


O texto premiado de incríveis 16 páginas é assinado pela baiana Claudia Barral. Escrito em 2000, somente em 2019 chegou aos palcos no Rio de Janeiro. O espetáculo estreou no Sesc Copacabana com sessões lotadas, cujos ingressos se esgotavam horas antes. A autora faz uma reflexão profunda sobre as relações humanas, sobre a cegueira e a loucura, sobre a arte, sobre destinos que se transformam, sobre a árdua rotina de forma tão bem amarrada, conectando criatividade, humor cítrico e crítico para ao final dar o pulo do gato. Um texto arrebatador!


Os atores Alexandre Lino e Daniel Dias da Silva realmente contracenam, na acepção mais fiel da palavra. Alexandre Lino conduz seu personagem Nestor com muita potência, na voz, nas tresloucadas risadas, exercendo domínio sobre seu irmão sem esboçar qualquer freio. Sua atuação faz de seu personagem Nestor o condutor, a mola propulsora dos conflitos. A dificuldade da cegueira do personagem não aparece em nenhum momento na atuação, ao contrário, tratada de maneira tão natural e aproveitada em nuances gestuais enriquecem o trabalho. Daniel Dias da Silva transparece toda a fragilidade, confusão, insegurança e submissão de seu personagem de maneira comovente. Sua atuação desperta no espectador um sentimento de piedade dada a condição em que Lázaro vive. O ator vai sutilmente revelando a complexidade deste irmão na aceleração e quebras de ritmo de falas e de gestos que demonstram a confusão mental e emocional de seu personagem. Dois gigantes atores em atuações que entram para o seleto rol das inesquecíveis.


A direção de Gustavo Wabner traz todas as atmosferas peculiares a uma relação doentia. Toda a movimentação cênica tem o propósito de ir montando um quebra-cabeça com um desfecho absolutamente inesperado. O diretor alcança com isso o ritmo perfeito para o espetáculo e extrai dos atores atuações intensas. Gustavo Wabner , tendo trabalhado com grandes diretores, apresenta ao espectador uma direção madura e impactante.


O cenário de Sergio Marimba, o figurino de Victor Guedes são fundamentais para o espectador adentrar em todo o contexto da peça, mas vale a pena dar um especial destaque à direção musical de Tibor Fittel. As músicas pontuam as cenas de tal forma que quase são um personagem à parte.


"O Cego e O Louco" merece muitos prêmios, com toda a certeza, mas além disso, merece estar na memória como um grandioso espetáculo.






Serviço:

¨O Cego e O Louco¨ - Presencial e On-Line

Local: Teatro PetraGold

Endereço: Rua Conde Bernadotte, 26 - Leblon

Horário: Quintas, às 19h

Venda de ingressos: www.teatropetragold.com.br

domingo, 4 de julho de 2021

Mãe De Santo



Não mexe com o meu sagrado! Não mexe com minha cor! Não mexe com a mulher preta que sou! Não mexe comigo que sou resistência! Nem todas essas frases fazem parte do espetáculo "Mãe de Santo", mas traduzem bem os textos e relatos de Helena Theodoro, mulher,  preta,  Yalorixá,  escritora e filósofa, figura excepcional que com sua  experiência espelha com orgulho várias gerações de mulheres afro-brasileiras.


Theodoro construiu o argumento do espetáculo, argumento de sua própria história, de situações onde o maior desafio era não deixar o dito por não dito.  Mulher guerreira, sabedora de seu lugar no mundo, cadeira cativa na luta das mulheres pretas. Uma trajetória de força, desafios, reposicionamento na sociedade  e empoderamento. Nas palavras de Helena Theodoro fica bem claro o que representa o espetáculo: " Mãe de santo representa para mim as mil possibilidades da mulher preta, que dá asas à sua imaginação seja mostrando musicalidade, poesia, espiritualidade, habilidade e maternidade desde muito tempo.  Ser mãe de santo é ser mãe do mundo, cuidando de gente de ontem - seus ancestrais - ou de hoje - sua família, amigos, parceiros-, preservando o mundo para um amanhã mais pleno, transformado pelo elo de afeto entre as pessoas, pela arte e por toda a beleza que um olhar doce e meigo pode oferecer. Mãe de santo é mulher que se orgulha de suas histórias e identidades, entendendo que nada é mais profundo do que a pele preta que traz em seu corpo e ilumina a sua alma."


O monólogo escrito por Renata Mizrahi  sintetiza em 45 minutos a vivência  e a expressividade de várias mulheres pretas e isto não é tarefa fácil, pois há muito a ser contado. As ações se transformam em diversos episódios interessantes, angustiantes, revoltantes, sublimes, evidenciando a força,  a poesia, a resistência, a superação destas mulheres a cada passagem. O texto é forte, potente como precisamos neste momento.


A linguagem é audiovisual. Muitos pensam que isto não é Teatro. Mas, esse purismo cega e invalida o fato de estamos no Brasil, com toda falta de incentivo  às artes. O fazer teatral se adaptou como mutante a esses tempos e isto sim deve ser visto e exaltado.


Temos na  direção de Luiz Antônio Pilar muita sensibilidade aos focos da temática,  mesclando objetividade e subjetividade com relação à intérprete,  uma condução muito criativa através dos belos ângulos e enquadramentos. Portanto, a direção é um dos fatores que contribui para o prazer de  assistir a este espetáculo.


A interpretação de Vilma Melo, primeira  atriz negra vencedora do prêmio Shell em 2017, é forte, marcante sem em nenhum momento  elevar desnecessariamente o tom. É  marcante porque  é verdadeira e com isso extrai diversas reações do espectador. Adaptada à linguagem, sua atuação é intensa e sutil na medida certa, como se espera de uma grande atriz. Vilma Melo é referência de sua geração e constrói as vivências da mulher preta com nuances. É daquelas atrizes que no palco fica imensa, tal seu inteiro domínio da arte de interpretar.


O cenário e o figurino são  multifuncionais, utilizados de diversas formas só engrandecem o espetáculo.


A trilha sonora de Wladimir Pinheiro intensifica e confere beleza às passagens cênicas e a iluminação de Anderson Rato tem o condão de nos tornar íntimos da ação.


Ser mulher, preta, mãe de santo com toda a intolerância religiosa que temos visto são impulsos à luta individual e coletiva e busca da transposição de barreiras que ninguém, ninguém será capaz de interromper. Todo ato no sentido de luta pode ser de cura. Toda arte cura. A cura de uma sociedade doente pode se dar a partir daí. Em suma, um belíssimo espetáculo,  assistam!


A temporada acontecerá no canal do Sesc, de 02 a 25/07, sextas, sábados e domingos, sempre às 19h ( http://www.youtube.com/portalsescrio ).

 

 

 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Helena Blavatsky - Amores Ocultos

 

Na programação do Teatro Sesc em Casa há um espetáculo onde uma jovem e madura atriz domina a cena com uma bela entrega e, com certeza, muita pesquisa. Refiro-me a sempre surpreendente atriz Mel Lisboa no monólogo “Helena Blavatsky – Amores Ocultos”. É digna de realce a pesquisa vocal, corporal, emocional e histórica da personagem.

Essa crítica inverte os parâmetros do formato a que estamos acostumados em que, de início se retrata o texto e a direção, para somente após tratar da análise da interpretação porque neste caso específico a atuação da atriz é a grande responsável pelo verdadeiro sentido do fazer teatral. Mais adiante virão os comentários sobre a excelente concepção textual e a não menos brilhante direção. No entanto, faz-se necessário um olhar atento à interpretação de Mel Lisboa que encara uma personagem, até nos dias de hoje, de difícil compreensão e o faz ressaltando o que há de mais humano nela.

Vemos Helena Blavatsky com suas angústias, lutas, muitas vezes solitária, vivenciando seus dons que culminaram com a inauguração da Sociedade Teosófica, uma escola que visava comprovar cientificamente o misticismo filosófico. Vemos a ocultista ultrapassando diversos ódios recebidos , mas vemos acima de tudo a tenacidade com que enfrentou cada dificuldade social e pessoal. Com o corpo curvado, o andar com passos pequenos, a voz rouca, diga-se de passagem de difícil manutenção, com os sentimentos à flor da pele, Mel Lisboa nos apresenta com maestria sua personagem e não poderia ser diferente já que a atriz é um dos grandes destaques de sua geração.

O texto de Claudia Barral que se autodenomina não-peça advém da peça homônima de Plínio Marcos, escrita para que fosse interpretada por Walderez de Barros, é de um profundo acerto. Qualquer espectador, pela construção textual, conhece a vida e os feitos da escritora e médium russa. Desde a infância, juventude, casamento, a ida ao encontro de seu destino, em tudo há muita clareza e precisão que tem como resultado o interesse constante do público.

Quanto à direção de Márcio Macena há, muito bem estruturada, a proposta em que Mel é Mel e Helena é Helena. Com marcas precisas que não criam dúvidas em que momento é a própria atriz que faz às vezes de médium e em que momento é a encarnação de Helena Blavatsky falando por si mesma. Há marcas que ao serem repetidas criam um código que não deixa dúvidas na plateia.  O espetáculo cresce com o movimento de objetos que fluem de acordo com a presença dos espíritos que sempre estiveram ao seu redor. Cumpre destacar que a direção oferece todo o norte para a interpretação da atriz em alto nível.

A iluminação, o cenário e o figurino estão em uníssono com a proposta e merecem aplausos.

Trata-se de um espetáculo que deve ser visto assim que possível, quando houver nova oportunidade, pois se trata da mais fina flor do Teatro. Neste ano tão difícil é um alento assistir ao espetáculo e constatar que o Teatro como a água de um rio sempre sabe contornar obstáculos.

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Júlia E O Lobo: Um Despertar Feminino

 

O espetáculo Júlia E O Lobo: Um Despertar Feminino, escrito em 1991, por Lindemberg Monteiro, também diretor da versão online, busca através da paixão da mulher por um lobo que encontra na floresta, uma reflexão sobre temas representativos do universo feminino.

A trama contada por três bruxas já é em si uma abordagem da misoginia, na medida em que ao contrário de como é retratada atualmente, desde tempos idos a bruxaria  ou o mal foi atribuído às mulheres, culminando com a famosa caça às bruxas. É fato que as mulheres foram muito mais associadas às feitiçarias do que homens, como se extrai da obra “História da Bruxaria: Feiticeiras, Hereges e Pagãs”, de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander.

As bruxas Eulália, Sosmara e Abigail vão contextualizando o destino de Júlia que ao se apaixonar pelo lobo desenvolve instintos e uma percepção mais apurada, libertando sua sexualidade até o momento em que entra em cena a caçadora de lobos, Helena,  figura representativa da caça à liberdade feminina. Desde o patriarcado, a libertação feminina foi cerceada, culminando nos dias atuais com o constante aumento do feminicídio, tema igualmente abordado no texto através da metáfora final.

O texto contém muitas alegorias e simbologias. Porém, um pouco excessivas fazendo com que o espetáculo não flua mais naturalmente, o que de maneira alguma chega a comprometer sua inegável qualidade.

A direção é muito hábil ao dividir em três espaços a sala de vídeo, cada qual ocupado por uma das bruxas, o que abre o olhar do espectador, dividido nos planos em que as ações ocorrem sem cessar, em distintos cenários e uma iluminação muito certeira.

As atrizes, em um trabalho exigente no que diz respeito ao volume e profundidade do texto, atuam explorando as matizes das personagens, sendo muito responsáveis pelo feliz resultado do espetáculo. Kenny Alberti, Alline Ferreira e Maggie Schneider imprimem através do timbre da voz e do gestual a languidez, a sensualidade, o instinto, a complexidade e a força de suas personagens. Um elenco, sem dúvida, afinadíssimo.

Por fim, a beleza da música tema de Flora Menezes e Lindemberg Monteiro é incontestável.

 

Júlia E O Lobo: Um Despertar Feminino é um espetáculo criativo, profundo, relevante e fundamental nesta temporada.

 

 


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Na Hora Do Adeus

 

Dizer adeus a quem se ama não é simples. Torna-se mais difícil ainda quando existe a culpa. O espetáculo Na Hora Do Adeus aborda o comprometimento psicológico, a depressão, o alcoolismo de alguém que perdeu seu grande amor. Esse sentimento de luto, a vontade de desistir da própria vida, mas igualmente o encorajamento, o incentivo à superação são os elementos condutores do texto de Jarbas Capusso Filho, construído de forma sutil e por vezes bem humorada. Não há no texto e nem nos personagens um peso que tornem as cenas excessivamente carregadas. Há, na verdade, um casal que antes de tudo se ama muito, mesmo à distância. São belas as passagens em que ele tenta demovê-la do excesso de bebida e das ideias suicidas recordando um passado feliz. A mensagem encorajadora do texto nos leva a uma reflexão e à conclusão que o amor é capaz de transpor qualquer obstáculo ou barreira. Méritos para o autor que através de temática tão árdua como as dores psicológicas traz a esperança de dias melhores, esperança tão necessária no momento atual. 

O espetáculo esteve em cartaz no ano passado na Casa de Cultura Laura Alvin, torna-se imprescindível destacar a qualidade da direção de Daniel Dias da Silva ao fazer a transposição do palco para a câmera, colocando o espectador praticamente cara-a-cara com os personagens. A excelente direção consegue transições do humor ao drama de forma eficaz. Nota-se, inclusive, um cuidado com a iluminação, diferenciando a forte luz nele da pouca luz nela, o que é uma ótima solução , na medida em que os personagens se encontram em situações bem distintas. A direção parece ter feito um trabalho minucioso com os atores resultando em excepcionais atuações. 

Marcus Tardin cativa com seu tom de voz manso e seu sorriso espontâneo. Sua interpretação ilumina as cenas como um farol e conduz as mudanças de atmosfera do espetáculo. Há brilho em seu olhar, como as estrelas iluminadas citadas por seu personagem. Além disso, o ator consegue expressar a todo instante a grandiosidade do amor. Sem dúvida, uma interpretação marcante. 

Kenny Alberti tem nas mãos uma personagem complexa, mergulhada em suas dores e isto poderia leva-la ao equívoco de uma interpretação repetitiva. Muito ao contrário, com seu desempenho, a atriz emociona e atinge grandes momentos, explorando todas as possibilidades da personagem, inclusive gestuais. 

Na Hora Do Adeus é bem estruturado, com momentos leves, apesar de tratar de questões tão sérias, por isso surpreende e é tão envolvente. Em suma, um valoroso espetáculo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Se Você Tivesse Falado


O espetáculo baseado em "Otelo", de Shakespeare e no livro de Christine Brückner " Se Você Tivesse Falado, Desdêmona" aborda a fala da personagem trágica, de forma doce e meiga como ela própria se define e por isso mesmo forte e pungente.
E se Desdêmona tivesse falado, e se tantas mulheres brutalmente assassinadas, violentadas, estupradas, espancadas não silenciassem? Esse é o maior significado da peça, infelizmente cada vez mais atual.
Apesar do contexto ser fidedigno a essa cruel realidade, principalmente por ter crescido e muito a violência contra a mulher durante a pandemia, a direção e a interpretação da atriz Viviani Rayes busca o polo oposto mostrando com delicadeza, suavidade e sutileza esta violência.
Vê-se um céu lindamente azul quando em off Otelo, o esposo enciumado, agressivamente a manda calar, quando esbraveja e expõe seu ódio insano contra a mulher. Aqui vale destacar a interpretação de Yashar Zambuzzi, muito bem nos momentos de explosão.
Por obra da feliz direção, a ação se dá com pétalas vermelhas sobre um lençol que sugere uma relação despedaçada, mas que por outro lado, embeleza cada fala da personagem. A atriz interpreta com minúcia, com detalhes preciosos de expressão e modulação vocal, com maturidade e domínio. Suas escolhas tornam a personagem cada vez mais surpreendente.
Um belíssimo trabalho! Uma forte denúncia!

Vocês poderão assistir no facebook viviani. rayes nas seguintes datas: 08, 09, 15 e 16 de setembro, às 19h

domingo, 1 de dezembro de 2019

Nastácia


A experiência de ser espectador de Nastácia, peça-instalação em cartaz no CCBB, remete a sensações tão distintas quanto o caráter dos personagens. A incredulidade, a revolta, o humor cáustico, o lamento são alguns dos muitos estados de espírito que a plateia vivencia.

Livremente inspirada em "O Idiota" de Fiódor Dostoiévski, a adaptação pinça a personagem heroína Nastácia Filíppovna como ponto central de uma trama que apesar de ter sido escrita no século XIX é atualíssima. Nastácia, após uma infância trágica em que se viu órfã e após ter sido apadrinhada por Tótski sofreu abusos e foi mantida prisioneira durante nove anos. No dia do seu aniversário ocorre um verdadeiro leilão para que ela se case, porém Nastácia vira a mesa em busca da sua dignidade e expõe a vilania de todos os presentes: Tótski o abusador, Gánia um pretendente debochado e covarde, interessado apenas em seu dote. Nastácia enfrenta todos como único meio de lidar com a desonra que sente e a busca pela vingança por tantos maus tratos. O único personagem que a vê sem críticas é um homem humanista e de extrema pureza, o príncipe Míchkin.

A dramaturgia irretocável de Pedro Bricio é plenamente certeira ao trazer as características dos personagens com tantos detalhes, mas com a surpreendente referência à ambientação em São Petersburgo e no Rio de Janeiro de 2019, pois em relação à violência contra a mulher nada mudou. Com ousadia e profundo domínio da obra, o texto coloca os espectadores como convidados da festa de aniversário e, com isso, logo somos arrebatados para aquele contexto.

Criativa, dinâmica, construindo e desfazendo atmosferas, a direção de Miwa Yanagizawa é um dos pontos altos do espetáculo. O ritmo que a direção imprime é um dos fatores fundamentais para manter sempre o interesse da plateia. As soluções cênicas são muito inspiradas e potentes. Apenas a título de aguçar a curiosidade do público que irá assistir, a última cena apesar de amplamente citada é surpreendente e o espetáculo se encerra em alto estilo. Vale também a pena destacar o trabalho da direção na preparação dos atores, pois todos atuam em altíssimo nível.

No elenco, Flávia Pyramo, idealizadora do projeto, tem a personagem nas mãos. Interpretar uma personagem trágica exige um tom a mais do que o comum, por isso se faz necessária muita veracidade. Perfeita em suas transformações, alcança todas as nuances. Sua personagem conduz as mudanças no contexto das cenas. Responsabilidade que a atriz desempenha com maestria. Sua Nastácia é forte, frenética, profunda, sofrida e complexa.
Júlio Adrião conduz Tótski apresentando sua tirania com desdém de quem se sente acima do bem e do mal e sem culpa. O ator traduz muito bem esse homem desprezível.
Odilon Esteves com seu personagem patético Gánia, alguém que mais se assemelha a um rato, atua com tanto carisma que as cenas com humor vêm de seu desempenho.

Há muitos destaques impecáveis, tais como a iluminação de Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal que apresentam as atmosferas obscuras e trágicas daquela noite, a direção de arte de Ronaldo Fraga com a instalação repleta de molduras vazadas e figurinos, que são por si só quase que os próprios personagens, a trilha sonora de Gabriel Lisboa pontuando todos os climas com exatidão. Tudo em uníssono com a grandeza da encenação. Isso sem falar na contribuição muito adequada da videoarte do cineasta Cao Guimarães.

Nastácia é merecedor da sua presença e de novas temporadas. Merece prêmios e reflexão. Profunda reflexão, pois sempre caberá repúdio à coisificação da mulher. Num contexto de falta de humanidade, cabe o dito por Dostoiévski:" Compara-se muitas vezes a crueldade do homem à das feras, mas isso é injuriar estas últimas."





Local : CCBB -   Teatro III
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 - Centro
Telefone - 3808-2020
Quarta a domingo, às 19h30
Temporada: 23/10 a 22/12
Classificação: 16 anos
Ingressos: R$ 30,00 ( inteira ) e R$ 15,00 ( Meia )
Gênero : Drama
Duração: 100 minutos



domingo, 17 de novembro de 2019

Mais Preta que Nunca!


Preta Maria Gil ou simplesmente Preta Gil está em cartaz com a Stand Up Comedy "Mais Preta que Nunca!", dirigida por Otávio Muller e acompanhada de uma banda muito talentosa formada por mulheres: Zinha Franco no baixo, Flávia Belchior na bateria e percussão e Taís Feijão no violão e guitarra. A excelente direção musical é de Francisco Gil.
O monólogo autobiográfico, com roteiro de Daniela Ocampo, traz os quarenta e cinco anos de vida, de quem nasceu em pleno tropicalismo e que se transformou num ícone do empoderamento feminino. De forma cômica, potente e sincera, sem papas na língua, ela desfila pelo palco à vontade contando uma parte da infância onde reverteu todas as situações de bullying em afirmação da personalidade, além de outras passagens, tais como a convivência em família, os interesses da adolescência e o nascimento da carreira. Tudo isso embalado por canções que marcaram épocas.
A direção optou por projeções que ilustram o texto. Enriquecem as cenas através de fotos de infância, imagens de arquivo dos tios, madrinha, pai, mãe, irmãos e amigos, imagens representativas de símbolos ligados à moda, aos costumes e ídolos como Gretchen, As Frenéticas e do Pop Rock da década de oitenta, enfim coloridas e brilhantes acrescentam tanto que são desnecessários mais elementos cênicos. Ainda a respeito da direção, apenas a ressalva de que poderia ter diversificado mais as marcas.
Preta parece feliz em cena, transborda carisma e intensidade, porque ela olha cara a cara e não lhe falta coragem. Está à vontade para expor passagens engraçadas e dolorosas, como a perda do irmão Pedro. Preta carrega esse poder de ser quem é. Como diz: ninguém deve deixar isso para trás. Além de intérprete de si mesma, canta muito bem vários sucessos, faz número de plateia convidando quem quiser a participar de um karaokê, para quem não sabe foi assim que descobriu seu talento para a música. E não poderiam faltar os cacos, o que torna o espetáculo uma verdadeira experiência de alegria, bem-estar e de lição de amor próprio. Muito à vontade, freneticamente diz o texto e tem uma postura corporal o tempo todo despojada.
Quem quiser ser feliz, cantar, rir, assistir como uma grande mulher se comporta diante dos desafios que a vida apresenta, não deixe de assistir: " Mais Preta que Nunca!".

Teatro XP Investimentos
Avenida Bartolomeu Mitre 1110, Lagoa
Tel.: 3807.1110
Temporada: 14 a 29 de novembro
Qui, sex e sab. às 21h e dom às 20h
Classificação: 12 anos

Inteira: R$ 100,00
Meia entrada: R$ 50,00 
Cliente XP: R$ 50,00




terça-feira, 24 de setembro de 2019

O Anjo Do Apocalipse

Um dos melhores textos dessa temporada, O Anjo do Apocalipse, de Clovis Levi, é capaz de apresentar a árabe da Palestina Zahra e o judeu Eliakim num misto de amor e ódio, que poderia facilmente conduzir o espectador a um posicionamento no conflito que assola o Oriente Médio, mas não o faz. A dimensão do texto justamente reside no fato de mostrar que, através de várias vidas, os personagens sempre estiveram em lados opostos e apesar de existir amor nunca houve paz entre eles.

Levi, desmistificando as histórias únicas propagadas pelas diversas religiões que enfatizam as diferenças, ao invés das semelhanças, profetiza que caminhamos todos, de mãos dadas, para o apocalipse. Isso nos faz pensar na frase da escritora nigeriana Chimamanda Adichie:
“História única rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes, ao invés de como somos semelhantes.”

Essas diferenças são apresentadas no texto desde os primórdios do Antigo Testamento e se tem, ao final, a impactante constatação de que a humanidade vem entrando em processo de falência que só acabará, na melhor das hipóteses,  quando finalmente chegar uma nova era, como dito de forma poética pelo Anjo:" Em algum tempo ainda muito distante, descerá dos céus uma Cidade Nova - uma santificada Jerusalém. O sol surgirá da negritude. Mas, até lá, a voz de harpistas, a voz de violinos, a voz de tocadores de flautas e de clarins, jamais, jamais em ti se ouvirá.".

Outro ponto alto da dramaturgia é colocar no texto dito pelos atores a narração de ações e até mesmo da voz interior de cada um deles. Isso foi muito bem desenvolvido pela direção de Marcus Alvisi, pois a cena, a contracena e a narração se dão sem quebras ou interrupções elevando a tensão das situações que vão surgindo, rompidas com o humor, ironia e deboche do anjo numa interpretação marcante de Marcello Escorel. O diretor conseguiu extrair todas as atmosferas possíveis, desde o apedrejamento da mãe de Zahra, diga-se de passagem, numa interpretação emocionante da atriz Juliane Araújo, aplaudida em cena aberta, até os momentos de entrelaçamento de extremo ódio e não menos amor do casal. Destaque para a poética cena dos pirilampos e do massacre numa apresentação de violino do personagem Eliakim, interpretado com força e sensibilidade por Daniel Dalcin. O diretor Marcus Alvisi também assina a linda trilha sonora, em parceria com Joel Tavares.

A iluminação de Aurélio de Simoni é inspirada, compondo as cenas de forma arrebatadora. A cenografia de José Dias é profundamente adequada e quanto menos elemento em cena, mais se agiganta, pois dá à direção as múltiplas possibilidades de utilização. Maria Duarte, através de figurinos compostos por bases simbólicas como botas, calça camuflada e jaqueta, sobrepõe outros adereços que ilustram os diferentes momentos por que passam as cenas.

O Anjo do Apocalipse, sem dúvida, é um espetáculo que dá um belo recado e convida a todos a uma reflexão necessária. Como escreve Clovis Levi no programa da peça: " Quem sabe se, ao vivenciar o horror causado pelos acontecimentos na Palestina, isso ajude o brasileiro a refletir com mais consciência sobre o valor da vida e sobre o direito que cada cidadão tem de acreditar em seus princípios e em lutar civilizadamente na defesa deles.".





O Anjo Do Apocalipse
Temporada: de 07 de setembro a 07 de outubro
Local: Teatro Ipanema: Rua Prudente de Morais, 824 - Ipanema Tel: 2267-3750
Horário: Sexta, Sábado e Segunda, às 20h e Domingo, às 19h
Ingressos: R$ 60,00 ( Inteira ), R$ 30,00 ( Meia )
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 90 minutos
Gênero: Drama


sábado, 7 de setembro de 2019

Monstros

O premiado espetáculo argentino, com montagens no Uruguai e República Dominicana, apresenta uma temática pouco comum ao gênero musical. Pais que têm filhos especiais, a dificuldade de lidar com eles no âmbito familiar e social, bullying e violência. O espetáculo do argentino Emiliano Dionisi é contemporâneo e impactante. A tradução é de Victor Garcia Peralta. Quanto a esta, tem-se, às vezes , a sensação de que em português , principalmente nas canções, há palavras em demasia.

Tendo nas mãos um texto profundo, a direção de Victor Garcia Peralta optou por apresentar de frente, sem subterfúgios, a crueldade, a falta de compreensão do universo de crianças especiais, a monstruosidade da qual alguns são capazes. Isto tudo está na encenação muito bem desenvolvidos. No entanto, a opção por marcações pouco dinâmicas, com extrema redução de recursos, torna o espetáculo árido e com uma atmosfera pesada. 

No elenco, dois artistas que são referências no teatro musical: Claudio Lins e Soraya Ravenle interpretam quatro personagens, os pais e seus próprios filhos. Inicialmente, o ator atua de forma distante, por demais técnica e com o decorrer da encenação encontra sua melhor maneira de expressão. Ao fim, sua atuação emocionada engrandece o espetáculo. Ela, maravilhosa atriz, tem uma atuação cheia de nuances. Há tons diversos em sua maneira de dizer o texto. Os poucos momentos de humor do espetáculo surgem através de sua personagem. Seu desempenho é intenso, de uma entrega absoluta. Cantores excepcionais, ainda que interpretando canções que nesta montagem são pouco melodiosas.

As músicas originais de Martin Rodriguez, com tradução e versões de Victor Garcia Peralta e Claudio Lins, ganharam novos arranjos de Azullllllll. Na montagem argentina havia uma banda em cena. Não é o que ocorre aqui. A direção musical de Azullllllll apresenta um trabalho muito rico, presente em cena com um set eletrônico, contribuindo para criar atmosferas da infância, de suspense, de tensão e terror.

O cenário de Fernando Rubio, o figurino de Claudio Tovar e a iluminação de Maneco Quinderé são adequados à proposta visual comedida da encenação. 

"Monstros" inova ao tratar de temática tão árdua no gênero musical, pena ser apresentado de modo tão seco.





Serviço:
Monstros
Teatro PetroRio Das Artes - Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52 - 2º 
Piso Telefone: 2540- 6004
Temporada: 06 de setembro a 27 de outubro
Sexta e sábado, às 21h e domingos, às 20h
Duração: 1h40
Classificação Etária: 14 anos
Ingressos: R$ 80,00 ( inteira ), R$ 40,00 ( Meia )
Funcionamento da bilheteria: 2ª a domingo, das 15 às 20h. Após às 20h somente para as peças do dia.

domingo, 28 de julho de 2019

A Invenção do Nordeste


“A Invenção do Nordeste”, premiado espetáculo do Grupo Carmin, encerra sua temporada no Rio de Janeiro e segue para São Paulo. Comentar essa peça é irresistível, pois deveria permanecer muitos e muitos anos em cartaz porque trata de nós mesmos. Cada um de nós está lá desde as primeiras perguntas direcionadas à plateia:" Quem é nordestino? Quem tem parente nordestino? Quem conhece algum nordestino? Quem tem um porteiro....".

O espetáculo aborda de forma irônica, crítica, cômica e atualíssima o nordeste a respeito de suas contribuições e da forma como se vê e como é visto. Uma crítica à xenofobia, ao estereótipo do nordestino e ao tratamento que está sendo dado ao seu povo até nos dias de hoje.

A partir de um teste para a escolha de um ator nordestino que interpretará um personagem nordestino, no processo conduzido pelo diretor vemos todo um histórico do surgimento, resistência e afirmação da importância de uma região que muito contribui para o país, mas que ao mesmo tempo nela cabe um país inteiro. Inspirado na obra de Durval Muniz de Albuquerque Jr, o texto de Pablo Capistrano e Henrique Fontes é consistente ao abordar temáticas como o cangaço, a religião na figura de Padre Cícero, o coronelismo, inclusive na política, o jeito e os costumes, a luta pelo reconhecimento. Tarefa tão arduamente ensaiada pelo diretor na busca do ator para o papel que o desfecho, por incrível que ainda possa parecer, é o avesso do esperado.

Quitéria Kelly, que assina a direção, imprime dinamismo através de cenas por vezes coreografadas milimetricamente, por vezes sutilmente delineadas. Com a utilização de elementos audiovisuais, a diretora coloca os atores contracenando com imagens projetadas e constrói outras que despertam a atenção do espectador como na cena em que tomam café e criam com o seu pó o mapa imaginário do que poderia ser o país Nordeste. Esse é só um  exemplo das muitas invenções da direção.

Os atores Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros estão à vontade para o exercício teatral que passeia pelo tom jocoso, caricato, cômico e essencialmente crítico. Um trio afinado e com muitos recursos corporais e vocais faz do texto seu apoio, mas não seu único refúgio. Através deles, cada palavra e cada gesto causam a certeza de que se está diante de aprazíveis atuações.

Cenário, figurino, iluminação têm o poder de abrilhantar o espetáculo.

O Brasil não é o berço do futebol, de Carmen Miranda e do café. O futebol é criação dos ingleses, Carmen era portuguesa e o café veio parar aqui através de uma muda trazida da Guiana Francesa. Como na música "Querelas do Brasil", de Aldir Blanc, a comédia “A Invenção do Nordeste” dá a dimensão de que o Brasil não conhece o Brasil.





A Invenção do Nordeste
Teatro Carlos Gomes - Rua Pedro I, nº4 - Centro - Tel: 2224-3602
Temporada : 18 a 28 de Julho
Quintas, sextas e sábados , às 19h e domingos, às 18h
Ingressos: R$ 40,00 ( Inteira ) R$ 20,00 ( Meia )
Duração: 60 minutos


domingo, 14 de julho de 2019

O Príncipe Poeira e a Flor da Cor do Coração

Tudo o que aprendemos na infância permanece em nossa memória afetiva, por isso experiências positivas são tão valorosas.

O espetáculo infantojuvenil "O Príncipe Poeira e a Flor da Cor do Coração" traz uma bela mensagem sobre a importância do respeito às diferenças, do amor e da morte. Mensagem que serve às crianças, mas também aos jovens e adultos, principalmente em tempos de intolerância. 


O texto de Saulo Sisnando que recebeu o Prêmio Literário da Fundação Cultural do Estado do Pará, em 2016, é inspirado nos contos "O Príncipe Feliz" e "O Rouxinol e a Rosa" de Oscar Wilde. Conta a história de três crianças, de uma professora linha dura e de uma andorinha amarela que vivem num lugar em que no alto da colina não existe uma estátua e onde só florescem flores brancas. Uma cidade em que os adultos ditam as regras, mas são as crianças que transmitem valores fundamentais. Poeira, um menino especial , através da pureza do seu coração, faz tudo se transformar junto com seus amigos Caniço e Rosa. A trama é permeada pelo respeito ao próximo, seja este igual ou diferente, e encanta pela delicadeza e o surpreendente desfecho.


Saulo Sisnando também assina a direção e apresenta um espetáculo sensorial. Cores, música e aroma chegam até o espectador em cenas criativas, engraçadas e poéticas. 


O elenco composto por Amanda Melo, Daniel Dias da Silva, Fabrício Polido e Nedira Campos passeia pela graciosidade, pelo humor e pelo afeto. Os atores em ótimos desempenhos ganham o interesse da plateia logo no primeiro instante e conduzem o espetáculo até seu final de forma cativante.


O cenário de Karlla de Luca dá asas à imaginação, seja no bosque ou na escola, com pinturas em tecido, carteiras que lembram aquelas existentes nas escolas de antigamente e com assentos em troncos de madeira criam a ambientação adequada.Os figurinos também assinados por ela, sem localizar onde e em que tempo se passa a história, são bem idealizados. 


A trilha sonora original de Roberto Bahal é muito inspirada tendo como resultado lindas canções. Toda essa atmosfera envolta na sensível iluminação de Fernanda e Tiago Mantovani.


Como no título de um livro de Drummond, "Amar se Aprende Amando", o espetáculo "O Príncipe Poeira e a Flor da Cor do Coração" nos faz relembrar o verdadeiro propósito da vida.







Centro Cultural Oi Futuro - Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo Telefone - 31313060
Sábados e Domingos, às 16h
Temporada: 22/06 a 11/08
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)
Classificação: Livre
Duração: 60 minutos